Pinturas, esculturas: volúveis e vorazes. 2015.

Há um tipo de artista que passa a vida procurando ver o mundo, de novo, pela primeira vez; para quem fazer arte será sempre reaprender a fazê-la. Ele começa por aceitar, e até celebrar, a contingência. O que vem a encontrar pelas ruas e museus, em acasos significativos, torna-se a matéria viva de sua arte. Mas cabe a ele, e só a ele, vitalizá-la. A graça dessa fluência topológica entre vida e arte, entre ser e fazer, não é concedida à toa – é preciso laborar, persistir, merecer-se eleito.

Um experimentalismo despretensioso, que pressupõe uma atitude de permanente disponibilidade, e ainda reservas consideráveis de energia plástica, atravessa a obra de Gabriela Machado desde as suas perecíveis Pinturas de Café (final dos anos 1980) até as recentes esculturas esdrúxulas. Inexistem etapas ou estudos preparatórios porque inexiste antevisão: de saída, a artista se envolve com técnicas e materiais recalcitrantes em busca de formas que parecem resistir, a todo custo, a tomar Forma. O frescor dessas descobertas, quase sempre solares, deriva, pois, de certa agonia. Só o empenho desmesurado, a imponderável disciplina do improviso, podem solucionar o dilema de cada súbito aparecimento.  Descobertas só se reconhecem como tais quando as coisas, afinal, se descobrem.

Sob o fascínio de Giorgio Morandi, tão caro a sucessivas gerações de artistas modernos brasileiros, Gabriela Machado realizou nos anos 1990 uma série importante de grandes desenhos. Reaparece aí uma das questões recorrentes da modernidade plástica brasileira: como deixar para trás nosso proverbial intimismo, fruto evidente das condições privadas do exercício da arte no Brasil? Ao ganhar escala, demandar presença ostensiva, esses desenhos forçavam o corpo da artista a movimentos francos e dessublimados. Em seus momentos de rearticulação, ressurge sintomaticamente na obra o desafio da escala – tudo indica que a artista tenha que atuar, e até se perder, dentro do trabalho para que este encontre o seu rumo necessariamente imprevisível. Justo porque nasce de uma percepção nervosa, que encantou e excitou a retina da artista, o quadro deve se expandir e transfigurar-se até o limite do inverossímil. A histórica liberação visual impressionista continua a deter aqui valor de princípio. Agora, contudo, “impressiona” o corpo inteiro, adquire força motora, dimensão comportamental. Na qualidade de arte contemporânea, cada tentativa de pintura enfrenta o teste de nos convencer da potência cognitiva e imaginativa das aparências materiais em um planeta literalmente hipnotizado pelo virtual. Em tais circunstâncias, mesmo supondo um espectador avisado, ou o quadro desperta o olhar, urgente, intrigante, ou passa despercebido.

A meu ver, o trabalho de Jorge Guinle ao longo dos anos 1980 reativou nosso campo pictórico, repôs em condições contemporâneas a pergunta pela pintura. Pergunta que, é óbvio, ultrapassa em larga medida sua produção precoce e cruelmente interrompida. Gabriela Machado, entre outros, agradeceu o incentivo. Não que se debruçasse sobre as telas de Jorge Guinle, girasse em sua órbita; de fato, elas deixaram apenas rastros aqui e ali. Mas o exemplo de uma prática tão culta, livre e desinibida reautorizou uma aventura contemporânea de pintura. E, se pretendia dar sequência à tradição moderna investigativa, no caso específico da iniciante Gabriela Machado, essa pergunta renovada pela pintura haveria de interrogar a sua origem: o fenômeno da visualidade pura. A pronta reação ao estímulo óptico, após tantos anos, segue fator intrínseco ao trabalho. A tal ponto que a própria construção do quadro se confunde com o quanto de intensidade luminosa que é capaz de emitir. Cumpre assim sua obrigação precípua: potencializar a visibilidade do mundo. Repete-se a eterna exigência da metafísica ocidental: salvar as aparências. Só que aqui ela consuma algo muito diverso da manobra original platônica – as aparências, no final das contas, apenas participavam das essências. Dispensemos, por insignificância, o uso corrente da expressão degradada em regra de ouro da hipocrisia. Salvar poeticamente as aparências significa dignificar o elemento comum do Mundo da Vida, atender com gosto a seus impulsos e provocações.

Aparências fugazes fazem parte do metabolismo incessante da vida, enervam a textura do mundo, incitam o exercício de uma lógica da incerteza. Não são, de modo algum, imagens, muito menos representações. Logo que as sedutoras Manchas Vermelhas (1999-2002), por exemplo, pacificam-se, ameaçam virar signos prestigiosos de autoria, acabam sumariamente descartadas. Uma fácil leitura pública congelou sua forma inquieta em belas imagens. O tempo se encarregará, acredito, de ressuscitá-las. Saudável regime de higiene estética – esta artista, pelo menos, quer espantar para bem longe sua sombra. Pinta no presente, sob o apelo irresistível do futuro. Buquês e vasos de flores vão assim se transfigurando em formações pictóricas meio assustadoras, estapafúrdias, prestes a sair da tela e perturbar a paz doméstica. Esta é a melhor Gabriela, sem dúvida alguma. Aquela que consegue implodir a composição, desacatar o senso de equilíbrio e proporção. O estranho e um tanto inexplicável é que, apesar de tudo, essas telas se revelem atraentes, irradiem certa beleza contrária, mas cativante. Em parte, é certo, pelo ardor com que foram pintadas. Quem sabe transmitam a sensação de felicidade ética própria às coisas íntegras, nas quais coincidem pensamento e ação.

Todo e qualquer a priori resulta, portanto, anátema, paralisariam uma atividade compulsiva que desconhece (tem que desconhecer) seu alcance e sua medida. Sem relegá-los ao ostracismo – também eles são produzidos com afinco –, as pequenas telas, aquarelas e desenhos semifigurativos não chegam a transgredir seus motivos, guardam sua memória latente. Prefiro considerá-los pausas contemplativas, indispensáveis ao trabalho para recuperar o fôlego antes de cada recomeço decisivo. Recomeçar, quer dizer, retomar o contato ansioso com o seu destino incompleto de artista.

A chamada imprevista e imperiosa para a escultura determinou outro recomeço radical da obra. À primeira vista, tudo nesse trato inédito com a argila e a cerâmica seria hostil, avesso ao temperamento volátil da artista. Há três ou quatro anos ela se esfalfa no aprendizado (e desaprendizado) exigente dos rudimentos dessa técnica milenar que só faz contrariar a notória impaciência de seus gestos pictóricos. O tempo de produção é mediado, lento e descontínuo, passa pelo forno, eventualmente culmina no molde de bronze. Sem mencionar as encrencas de praxe, rachaduras, estouros e carbonizações. Para tentar dizê-lo, também eu, de uma só vez: a tarefa espinhosa (e prazerosa!) é conjurar tantas manobras díspares em uma única peça espontânea, rápida e casual. Manipulada à exaustão a argila, levar as peças ao forno, em seguida aplicar tinta à vontade e dispô-las em bases de madeira crua provisórias e intercambiáveis, enfim, toda uma soma de esforços que terminam quase em um objet trouvé surrealista, achados fortuitos, em ocasiões propícias, por aí afora. Lembram bibelôs kitsches em plena metamorfose de qualificação artística. Algumas talvez evoquem as pinceladas oleosas de De Kooning, que, por efeito de extroversão, saltaram ao espaço. A maioria parece mesmo a tinta volúvel de Gabriela Machado em processo acelerado de solidificação.

E, como insistem em crescer, as esculturas agora oscilam entre bolos de noiva e Medusas. Reiteram com isso o funcionamento típico do imaginário do trabalho, sempre ocupado em redimir a beleza caída dos objetos cotidianos, regenerar figuras e formas gastas pelos maus-tratos de um consumo desatento que ignora o mistério das aparências.

Seja lá o que forem, essas esculturas malucas atualizam a vocação prospectiva do trabalho, agravam o seu tônus lírico. Elas se multiplicam, proliferam, invadem o ambiente no despropósito de acrescentar pura e simplesmente suas formações imaginárias à realidade convencional. Pouco importa o que possam sugerir, de início, ao nosso olhar condicionado. O importante é fazer e desfazer a sua experiência, acompanhá-las em seu acidentado, ora divertido, ora sofrido vir-a-ser. Pelo visto, querem se propagar em estágio perene de transformação. Pulsões de vida repugnam o definitivo, sabem muito bem de quem ele é sinônimo.