Entrevista conduzida por João Grama sobre a exposição “Terreirinho_”, realizada no Paço Imperial. 2023.

 

João Grama: Terreirinho é lugar de culto, título da exposição e simultaneamente nome desta sala.
Gabriela Machado: Foi surgindo a ideia de convocar trabalhos que não possuem a mesma visada, pinturas e esculturas de datas e séries diferentes. O ponto de partida é uma série inspirada nos lagos do Jardim da Estrela, em Lisboa – datam de 2017, de onde vêm uma/duas pinturas grandes. No seu encalço seguem outras pinturas posteriores, menores, embora paisagem. É uma exposição de paisagens que falam dos lagos, das águas e das coisas, que por sua vez dialogam com a minha prática de escultura. Em dado momento, no processo de preparar esta exposição e pela diversidade de peças, dei conta que estava levando as minhas coisas e construindo o meu Terreirinho. Foi um encontro-título feliz.

 

JG: Gosto muito dessa ideia de construção de um terreirinho.
GM: Eu sempre fiz uma exposição inteira com o mesmo olhar, que deriva da serialização do meu trabalho. A vida inteira assumi que essa era a situação certa de mostrá-lo. Mas na recente exposição na Casa Roberto Marinho, fim do ano passado, mostrei pinturas de séries diferentes que dialogavam com a própria coleção deles e esta diversidade passou a me interessar. O fato de ser uma exposição pública me deu uma liberdade de o fazer, e funcionou muito bem. Por essa razão, esta é a primeira individual que isso acontece.

 

JG: Isso coloca você num momento particularmente importante e exigente, onde os limites se quebram e tudo começa a ser possível.
GM: Eu acho que tem a ver com a percepção do tempo e a sua dimensão. Ou eu faço alguma coisa que me dá satisfação, no sentido de aprendizado, de algo que vem de um lugar desconhecido, ou não me ganha no olhar. Só isso está me interessando fazer, trabalhos que cheguem nesse lugar, que no mínimo me dê essa vertigem, ou o processo. O tempo ficou mesurado pelo que a pintura é, fazer para valer, não é mais só pintar, pintar, pintar.

 

JG: As pinturas podem começar a estar, de uma forma bonita e poética, em vários momentos do seu diário.
GM: Pode, e isso é algo que me interessa muito. E é engraçado, talvez até paradoxal, porque a minha pintura como projeto de pintura e como postura, o meu ataque, não é de pintura construída, nem pela ideia, nem pela cor, e nem por um processo de acúmulo de camadas de tinta. É uma pintura mais de se jogar e acertar. Mas agora, como eu pinto muito, eu mesmo tomei uma liberdade de estragar o que já está pronto, porque o que tem me interessado é chegar num lugar que eu não conheço, que eu não tenha domínio.

O pintar compulsivamente levou-me a perceber este lugar do frescor, de entender a obra em si dentro do meu olhar, o que é que me interessa, o que de fato faz a pintura virar pintura. Só estão me interessando, no momento, as obras que chegam neste espaço de entendimento das minhas escolhas. O quanto eu estrago essa pintura, repinto, apago, refaço o que já está dado para, enfim, chegar até ela. As pinturas têm que dar esse pulo do gato.

 

JG: Pode materializar esse pensamento?
GM: A minha poética vem de um processo do fazer e não de um projeto à priori. A pintura pode vir da percepção das cores de um lago, das águas, por exemplo, mas depois vira tudo outra coisa. Que foi o que fiz numa pintura recente, em que eu apaguei algo que não estava gostando e que estava “muito bonito”– no caso, o Pão de Açúcar. Esta atitude me deu uma enorme satisfação. Uma satisfação de poder salvar a pintura.

Isso aconteceu também com outras pinturas que já não as via fazia tempo. Quando as recebi olhei, “estraguei” e vieram com mais frescor. Então, acho que estou com a liberdade de meter a mão e isso nunca tinha acontecido antes nestas grandes pinturas.

As menores, mais próximas de mim, sofrem alterações com o tempo. Não tenho a certeza de que se tornem melhores obras, mas vão acumulando histórias para mim, da minha vida. O meu dia é a pintura.

 

JG: O que une todas estas peças que você vai mostrar na exposição?
GM: Em primeiro lugar, eu penso que é essa liberdade para pintar que estou neste momento e que abordei atrás, na nossa conversa. É o respeito que eu tenho pela minha poética.

Por outro lado, em todas as obras, estou buscando uma superfície que tenha luz. Quando entro com esses pontinhos na tela é para criar uma grade na frente e trazer aquele brilho que está acontecendo dentro da água. Se você estiver dentro do mar com seus olhos mesmos na linha do horizonte, é nesse lugar que se pode ver a luz fragmentada, são aqueles reflexos do sol na água marolada, e é esse brilhinho que está na frente de todas as obras de hoje. Tem na cobra, nas pequenas pinturas, nos movimentos das esculturas e tem nos Lagos, numa escala maior, através de uma escala de cor.

 

JG: Você referiu lá atrás que a pintura precisa de ser salva. Quando é que ela se encontra em perigo?
GM: Eu entrei nesse processo por ficar pintando muito, por entender quando aparece algo novo para mim. Ela está em perigo quando me copio. Eu só pinto quando o meu olho está brilhando por qualquer coisa que eu tenho interesse e que de fato passei a ver naquele momento e que não via antes. Agora, por exemplo, é o brilho no mar, daqui a pouco viro para outro assunto.

 

JG: Salvar a pintura, e salvar a pintora.
GM: Sim, exatamente. Desconstruir-me a mim mesma também.

 

Entrevista conduzida por João Grama e editada em Fevereiro de 2023.
João Grama é artista plástico, vive e reside em Lisboa.